Por Miguel Aguiar, Diretor Executivo,
Startup Portugal

Permitam-me o clichê, mas existem por um motivo: no passado, foram navegadores que partiram para o desconhecido, abriram rotas, ligaram continentes e colocaram o país no centro do mundo. Hoje, os instrumentos são outros, mas a coragem é a mesma. Os novos protagonistas desta ambição são empreendedores, fundadores de startups, investigadores e inovadores que, a partir de Portugal, criam empresas globais, desenvolvem tecnologia de referência e levam talento nacional além-fronteiras. Sim, é clichê, mas é a realidade que vivemos.

A História mudou de forma, mas não de essência. Onde antes havia caravelas e astrolábios, há hoje conhecimento, ciência, dados, engenharia, software, inteligência artificial, saúde digital, fintech ou soluções para a transição climática. Onde antes se abriam rotas marítimas, abrem-se agora mercados internacionais, cadeias globais de valor e novas fronteiras tecnológicas.

O que permanece é o mesmo impulso: visão, ambição, capacidade de adaptação e vontade de competir à escala global.

Esse impulso já não é apenas uma narrativa. É uma realidade económica mensurável. Portugal conta hoje com mais 5.091 startups ativas, ultrapassando a meta das 5.000 startups defi nida no PRR e registando um crescimento de 8% face ao ano anterior. Cerca de 70% destas empresas foram criadas nos últimos cinco anos, sinal de um ecossistema jovem, dinâmico e em renovação constante.

Porém, o mais relevante é que este ecossistema já produz impacto concreto. As startups em Portugal geraram €2.856 milhões em volume de negócios, empregam cerca de 28 mil pessoas e representam aproximadamente 1% do PIB nacional. Mais do que empresas promissoras, são já uma componente estrutural da economia portuguesa.

São também um motor de emprego qualificado. O salário médio mensal nas startups atingiu os €2.100, mais 10% do que no ano anterior, e 81% acima da média nacional. Num país que precisa de reter talento, atrair profissionais qualifi cados e criar oportunidades com maior valor acrescentado, este é um dado particularmente relevante: as startups não estão apenas a criar emprego; estão a criar melhor emprego.

E, como tantas vezes aconteceu na nossa história, este crescimento faz-se com vocação internacional. As startups portuguesas geraram €1.571 milhões em exportações, o equivalente a 1,5% das exportações nacionais, e mais de metade já tem atividade internacional relevante. Isto demonstra que a dimensão geográfica de Portugal não limita a sua capacidade de criar empresas competitivas em mercados globais. Pelo contrário: obriga-nos a pensar maior desde o primeiro dia.

Lisboa e Porto continuam a afirmar-se como pólos fundamentais deste ecossistema, mas o crescimento já se sente noutros territórios. Braga, Aveiro, Setúbal e outras regiões mostram que a inovação em Portugal não está confinada a uma geografia única. O país tem talento distribuído, universidades de qualidade, centros de conhecimento, incubadoras, investidores e empresas capazes de transformar boas ideias em soluções com impacto económico e social.

Este percurso não aconteceu por acaso.

Resulta de duas décadas de trabalho conjunto entre empreendedores, universidades, centros de investigação, investidores, empresas, incubadoras, aceleradoras e políticas públicas. Resulta também de uma aposta clara em criar condições para que as empresas possam nascer, crescer, internacionalizar-se e escalar a partir de Portugal.

O desafio, agora, é passar da fase de crescimento para uma fase de consolidação e escala. Portugal já provou que consegue criar startups. Já provou que consegue formar talento. Já provou que consegue atrair investimento, gerar exportações e produzir empresas tecnológicas com ambição global. A próxima etapa é garantir previsibilidade, continuidade e ambição para que mais startups se transformem em scaleups, mais scaleups se tornem empresas globais e mais valor fique ligado ao país.

Quando uma startup portuguesa cresce, internacionaliza-se ou é adquirida por um player global, não está apenas a gerar retorno económico.

Está a projetar Portugal como um país moderno, competitivo e capaz de liderar em setores estratégicos. Está a mostrar que o talento português não está condenado à periferia. Está a afirmar que Portugal pode ser pequeno em dimensão, mas não tem de ser pequeno em ambição.

O futuro constrói-se com inovação, talento e coragem para arriscar. Hoje, os nossos heróis não levam caravelas; levam ideias, tecnologia, ciência e visão global. Continuam a partir de Portugal para o mundo. E continuam a provar que este é, e sempre foi, um país capaz de ir mais longe.

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